5# INTERNACIONAL 14.5.14

AS ESCRAVAS DO TERROR
Na Nigria, o grupo Boko Haram sequestrou 276 adolescentes para escraviz-las ou vend-las a lderes tribais, respaldado pela interpretao literal do Coro.
DUDA TEIXEIRA 

     O terrorismo islmico, embora sustente uma retrica religiosa contra o Ocidente,  mais eficiente em fazer vtimas entre muulmanos pobres do Oriente Mdio, da frica e da sia. O grupo terrorista Boko Haram, da Nigria, no  diferente dos seus congneres nesse quesito. O que o distingue  a crueldade com que investe contra a prpria populao islmica do pas. Liderados por Abubakar Shekau, que cr falar diretamente com Al, os integrantes do Boko Haram raptaram no dia 14 de abril 276 estudantes em uma escola na cidade de Chibok, no nordeste do pas. "Eu sequestrei suas garotas. Vou vend-las no mercado, por Al", bradou Shekau em vdeo divulgado na semana passada. "Vou casar com uma mulher de 12 anos. Vou casar com uma de 9", vangloriou-se o terrorista, aparentemente referindo-se a meninas sequestradas anteriormente, j que as estudantes raptadas da escola de Chibok tm todas entre 16 e 18 anos. A maioria delas era crist e as demais, muulmanas. 
     O maior sequestro cometido pelo grupo at hoje ocorreu quando as colegiais estavam no dormitrio. Elas ouviram tiros e, assustadas, saram para a rua. Nesse momento, 200 homens armados e com uniforme do Exrcito se aproximaram em vinte picapes e trinta motos, afirmando estarem ali para proteg-las. Com essa mentira, conseguiram convenc-las a subir nos veculos. Apenas quando comearam a atirar para o alto e a gritar "Al  grande" elas perceberam a armadilha. J era tarde demais. Os terroristas atearam fogo  escola e levaram as adolescentes para um esconderijo no meio da floresta densa. Elas provavelmente sero vendidas como escravas pelo equivalente a 27 reais cada uma para chefes tribais na Nigria, em Camares e no Chade, onde sero obrigadas a se casar. H casos de vtimas de sequestros anteriores resgatadas enquanto trabalhavam no campo. Outras foram devolvidas mediante o pagamento de um resgate. Uma delas, que escapou, contou ter sido dada como presente a um lder tribal porque era virgem. Segundo o relato dela, suas amigas eram estupradas at quinze vezes por dia e foradas a se converter ao islamismo e a cozinhar. As que resistiam eram ameaadas de ter a garganta cortada. Ao menos duas morreram por picada de cobra e vinte ficaram doentes. As cerca de cinquenta que fugiram tiveram de se esconder longe da cidade natal e recebem ajuda de organizaes crists. "Isso porque o Boko Haram tem tentado recapturar as fugitivas. Quando percebem que elas no retornaram s cidades de onde foram sequestradas, os terroristas vingam-se incendiando as casas", diz o historiador ingls Adam Higazi, do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Cambridge. 
     Shekau, o chefe da gangue,  um nscio to desconectado da realidade que pensa que o ex-presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865) ainda est vivo. O nigeriano no fala com todos da trupe e s se comunica com alguns seletos confidentes. Entre as atrocidades comandadas por ele esto o massacre de 65 estudantes em uma escola agrcola, a degola de caminhoneiros e atentados a bomba. Na segunda-feira 5, seus subordinados queimaram um mercado, a alfndega, lojas, casas, carros e armazns de gros na cidade de Gamboru Ngala, tambm no nordeste do pas. Pelo menos 100 moradores morreram e onze jovens foram raptadas. Nos primeiros trs meses deste ano, o Boko Haram matou 1500 pessoas. "O grupo  conhecido por atacar mulheres, meninas e meninos, cristos, muulmanos, funcionrios da ONU", diz a historiadora americana Rona Peligal, da Human Rights Watch, em Nova York. "O objetivo, portanto,  aterrorizar a populao como um todo e usar as mulheres como gratificao sexual." 
     Na lngua hau, falada na Nigria, Boko Haram significa "falsidade  pecado". Quando o governo colonial ingls comeou a replicar suas instituies no pas, os emires e os integrantes da elite nigeriana reagiram rotulando tudo o que no estivesse ligado ao islamismo como fraude, vergonha, "boko". O termo era aplicado a toda educao no cornica, como aulas de geografia e de qumica. O fundador do Boko, Mohammed Yusuf, recuperou esse sentimento em 2002 e quis criar na Nigria um Estado islmico baseado na sharia, a lei religiosa. Seus primeiros ataques foram contra muulmanos, acusados por ele de aceitar um governo secular. Pela sharia,  permitido escravizar prisioneiros de guerra. O profeta Maom capturou, vendeu e possuiu escravos e escravas. As caravanas rabes que atravessavam a frica no sculo VII quase sempre voltavam cheias de serviais. "A escravido  permitida na minha religio", diz Shekau em seus vdeos, entre um rosnado e outro. Os ltimos pases muulmanos a abolir a prtica o fizeram na segunda metade do sculo passado. Os terroristas do Boko Haram, contudo, querem viver no passado. 
COM REPORTAGEM DE LETCIA NASA


